O efeito terapêutico do perdão.
Quando se
fala de perdão, é impossível excluir sentimentos como a raiva, a mágoa e o
ressentimento que escondem muitos outros sentimentos e energias. Se nos
perdermos nesses sentimentos ficaremos surdos aos nossos sentimentos mais
profundos e ouviremos somente aqueles que nos falam mais alto.
A raiva é uma forte e temporária reação
emocional à sensação de estar sendo ameaçado de alguma maneira. Quando surge a
raiva ela pode ser expressa aberta e diretamente (declarar o sentimento de
raiva) ou pode ser reprimida e disfarçada indo para o subterrâneo ou
inconsciente, mas sempre se expressando de uma maneira silenciosa e
persistente, como ressentimento crônico ou através de doenças psicossomáticas.
A mágoa é uma dor presente que traz consigo
uma sensação de tristeza e esgotamento por sentir-se com o ego ferido. A mágoa
gera um profundo sentimento de injustiça e de não se ter sido valorizado o
suficiente, de não ter merecido a situação geradora da dor. A mágoa é a mola
propulsora do ressentimento; ela impulsiona o ressentimento.
O ressentimento significa ressentir, e sentir de
novo, e novamente uma dor provocada por alguém que agiu com crueldade contra a
gente. É uma sensação de mágoa ou raiva crônica, constante que persiste por
muito tempo mesmo depois de já terminada a situação causadora da raiva. O
ressentimento ou ódio é comparado a uma brasa ardente que seguramos com a
intenção de jogá-la em outra pessoa, enquanto ela queima a nossa mão. Ou é como
o ácido que tomamos que corrói todos os sentimentos bons dentro de nós.
O que significa perdoar? Creio que é necessário esclarecer
aqui alguns conceitos equivocados sobre o perdão. De certa forma, é mais fácil
dizer o que o perdão não é do que explicar aquilo que ele é.
Esses
conceitos errados são importantes porque, às vezes, ao afirmarmos que não podemos
ou não queremos perdoar, na verdade estamos nos referindo a qualquer coisa que
não ao perdão bíblico. Deixe-me fazer uma relação parcial daquilo que o perdão não significa:
• Não
significa aprovar o que uma pessoa fez;
• Não
significa fingir que o mal nunca foi feito;
• Não significa inventar desculpas para o mau comportamento de outros;
•
Não significa justificar o mal para que o pecado se torne, de algum modo, menos
pecaminoso;
• Não significa fazer vistas grossas para o abuso;
• Não significa
negar a tentativa de outros de feri-lo repetidamente;
• Não significa
permitir que pisem em você;
• Não significa se recusar a dar queixa quando o ato foi criminoso;
• Não significa
esquecer o mal que foi feito;
• Não significa fingir que você nunca se magoou; •
Não significa que você deve restaurar o relacionamento ao que era;
• Não significa que você deve
voltar a ser amigo daquela pessoa;
• Não significa que deve
haver reconciliação total, como se nada tivesse acontecido;
• Não significa que você precisa dizer à pessoa que a perdoou;
• Não significa que todas as consequências negativas do pecado são
anuladas.
O que é perdoar?
É um processo
interior e pessoal quando perdoamos secretamente, sem que ninguém, nem mesmo
quem está sendo perdoado saiba disso. Assim, pode-se perdoar mesmo alguém que
já morreu.
Cada ato de
perdão é um confronto conosco mesmo e a decisão de perdoar, soltar o ofensor
nos liberta. Nos lembraremos da ofensa, sem sentir dor. É como uma ferida que
está cicatrizada.
O perdão é
um ato libertador que nos devolve paz interior. Nos livramos da raiva, da mágoa
e do ressentimento que, juntos sempre se transformarão no desejo de vingança. O
perdão é um ato de amor que estanca o ciclo vicioso do ressentimento, da
excitação do ódio.
Quando
perdoamos, somos perdoados e nessa prática encontro paz, compaixão e gratidão,
que sempre nos trarão de volta à nós mesmos.
Quando perdoamos
estamos usando a nossa habilidade de direcionar as nossas vidas para fugir das
armadilhas emocionais a que estamos expostos e nos valorizamos.
Jay Adams,
famoso psicólogo americano afirma: “O
perdão não é um sentimento, mas uma promessa ou compromisso relativo a três
coisas: não usarei contra o meu ofensor, não falarei com outras pessoas sobre o
meu ofensor e não insistirei mais nisso”
O perdão é fundamentalmente uma
decisão interior de recusar-se a viver no passado. É uma escolha consciente de libertar
os outros dos pecados cometidos contra você para que você possa ser liberto.
Não nega a dor nem muda o passado, mas rompe o ciclo de amargura que o prende
às feridas de outrora. O perdão lhe permite deixar o passado para trás e
avançar para o futuro. E essa história ilustra como é possível perdoar mesmo
quando os outros nada confessam. Você pode perdoar sem haver restauração no
relacionamento. Você pode perdoar mesmo quando a pessoa que lhe feriu não tome
conhecimento.
O perdão lhe permite deixar o passado
para trás e avançar para o futuro. A pessoa não fez
coisa alguma para merecer o perdão, pois o perdão é como a salvação — é uma
dádiva oferecida gratuitamente e que não pode ser merecida. Pode acontecer de
você perdoar e a outra pessoa nem ficar sabendo. Você pode perdoar sem dizer:
“Eu o perdôo”, pois o perdão diz respeito ao coração. Isso me leva de volta às
palavras de C. S. Lewis: “Todos
consideram o perdão uma ideia muito bonita até precisarem perdoar alguém”.
TRÊS NÍVEIS
DE PERDÃO segundo Lewis Smedes
·
Em
primeiro lugar, redescobrimos a natureza humana de quem nos magoou. Isso
significa simplesmente que, sem amenizar o pecado dessa pessoa, reconhecemos
que é pecadora como nós.
·
Em
segundo lugar, abrimos mão do nosso direito de acertar as contas com aquele que
nos causou muita dor. Trata-se de algo difícil, pois é natural desejar que
alguém pague pelo sofrimento que a pessoa nos causou. Devemos, porém, deixar
todo julgamento nas mãos de nosso Deus justo e misericordioso.
·
Em
terceiro lugar, reavaliamos nossos sentimentos em relação ao outro. Isso
significa abandonar a raiva e colocar de lado a amargura. Em última análise,
significa atentar, com seriedade, para as palavras de Jesus quando disse: “Amai
os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5:44). Você
saberá que chegou a esse nível final de perdão quando for capaz de pedir que
Deus abençoe aqueles que o feriram de modo tão doloroso e profundo
- Divórcios.
Lares despedaçados. Casamentos destruídos. Promessas quebradas. Filhos que não
querem saber dos pais. Pais que não querem saber dos filhos. Amigos de longa
data que não se falam mais. Pessoas que perderam o emprego porque alguém lhes
puxou o tapete. Pessoas que perderam os bens porque alguém as lesou. Famílias
cujos membros se odeiam tanto que não conversam nem na época do Natal. Todos
esses dissabores têm várias respostas, mas no fundo apenas uma. Todos têm
muitas soluções, e uma que você deve implementar: - Livre-se deles e você será
liberto. Porém, no mesmo instante em que ouvimos ou lemos essas palavras, a
mente inicia as argumentações: - Você
não sabe o que ele/a ou eles me fizeram?!!!!
•
Eles
mentiram repetidamente a meu respeito.
•
Ela
queria destruir minha carreira — e conseguiu.
•
Você
não pode imaginar o inferno que vivi.
•
Se
você soubesse como isso afetou minha família, também ficaria com raiva.
•
Eles
merecem o mesmo sofrimento que me impuseram.
•
Vou
fazê-los pagar por isso.
•
Minha
filha foi estuprada. Como é possível perdoar uma coisa dessas?
•
Sofri
abuso sexual de um clérigo. Como é possível perdoar uma coisa dessas?
•
Nunca
vou perdoar essas pessoas. Nunca!
Por que perdoar é tão difícil?
- Porque uma
parte de nós deseja continuar a sentir a raiva porque ela é justificada; ou
porque a pessoa que sofreu o dano, a que foi ferida é quem perdoa e não aquela
que o causou. Aquele que perdoa paga o preço pelo mal que o cometeu contra ele.
É levar sobre si a culpa do pecado de outrem. O ofensor é liberto suportando a
sua própria repulsa transformando-a em amor. Absolvemos e libertamos o
culpado. Ninguém realmente perdoa a
outrem a menos que suporte a penalidade do pecado e da ofensa alheia.
É
difícil perdoar porque todos nós temos o hábito de construir nas nossas mentes
a maneira como o outro deve agir, como deve nos tratar e quando isso não
acontece, quando nossas expectativas são frustradas, ficamos com raiva e
endurecemos!
Perdoar é
desistir do meu direito de devolver-te a ofensa, a mágoa que me causaste.
·
Um
ditado popular diz: ultrajando teu inimigo, tu te colocas abaixo dele, vingando
uma injuria, estás no mesmo nível dele, perdoando, estás acima dele.
·
A
vingança é a arma mais sutil do mundo. Queime-se lentamente e você não ferirá
senão a si mesmo. Aquele que maquina o mal contra outrem envenena o seu
coração, onde se torna impossível brotar a bondade, o amor, a generosidade.
O perdão é uma questão do coração
Pv. 4: “Sobre
tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as
fontes da vida”
É do nosso
coração que procedem as iras, as contendas, os sentimentos de inveja e toda a
sorte de maldade. Se as fontes estiverem poluídas, dali brotarão má água.
(mágoas) e a vida toda se torna amarga como o fel.
Perdoar é também blindar o próprio coração para que ofensor não volte a nos
ofender, esta é uma questão de
sabedoria. Perdão e reconciliação são coisas distintas.
A
reconciliação só acontece quando a pessoa que nos feriu se dá conta do prejuízo
que causou e se arrepende da sua atitude.
E quando sou eu o ofensor?
Qualquer que
seja a ofensa cometida, precisamos nos dar conta da necessidade de consertar o
erro. As vezes a reconciliação falha porque a pessoa ferida pode não estar
disposta a perdoar a ofensa (daí o problema já não é do ofensor arrependido,
mas de quem não está disposto a perdoar).
Para aprender a perdoar eu preciso primeiro
aprender a reconhecer a minha humanidade e finitude pedindo perdão a quem
ofendo. Eu sei que sou gente e cometo erros, mas estou disposta a consertá-los.
É uma questão de humildade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário