segunda-feira, 22 de junho de 2015


O efeito terapêutico do perdão.
Quando se fala de perdão, é impossível excluir sentimentos como a raiva, a mágoa e o ressentimento que escondem muitos outros sentimentos e energias. Se nos perdermos nesses sentimentos ficaremos surdos aos nossos sentimentos mais profundos e ouviremos somente aqueles que nos falam mais alto.
A raiva é uma forte e temporária reação emocional à sensação de estar sendo ameaçado de alguma maneira. Quando surge a raiva ela pode ser expressa aberta e diretamente (declarar o sentimento de raiva) ou pode ser reprimida e disfarçada indo para o subterrâneo ou inconsciente, mas sempre se expressando de uma maneira silenciosa e persistente, como ressentimento crônico ou através de doenças psicossomáticas.
A mágoa é uma dor presente que traz consigo uma sensação de tristeza e esgotamento por sentir-se com o ego ferido. A mágoa gera um profundo sentimento de injustiça e de não se ter sido valorizado o suficiente, de não ter merecido a situação geradora da dor. A mágoa é a mola propulsora do ressentimento; ela impulsiona o ressentimento.
O ressentimento significa ressentir, e sentir de novo, e novamente uma dor provocada por alguém que agiu com crueldade contra a gente. É uma sensação de mágoa ou raiva crônica, constante que persiste por muito tempo mesmo depois de já terminada a situação causadora da raiva. O ressentimento ou ódio é comparado a uma brasa ardente que seguramos com a intenção de jogá-la em outra pessoa, enquanto ela queima a nossa mão. Ou é como o ácido que tomamos que corrói todos os sentimentos bons dentro de nós.
O que significa perdoar? Creio que é necessário esclarecer aqui alguns conceitos equivocados sobre o perdão. De certa forma, é mais fácil dizer o que o perdão não é do que explicar aquilo que ele é.
Esses conceitos errados são importantes porque, às vezes, ao afirmarmos que não podemos ou não queremos perdoar, na verdade estamos nos referindo a qualquer coisa que não ao perdão bíblico. Deixe-me fazer uma relação parcial daquilo que o perdão não significa:
• Não significa aprovar o que uma pessoa fez;                                          
• Não significa fingir que o mal nunca foi feito;                                                                • Não significa inventar desculpas para o mau comportamento de outros; 
• Não significa justificar o mal para que o pecado se torne, de algum modo, menos pecaminoso;                                                                                                               
• Não significa fazer vistas grossas para o abuso;                                                          
 • Não significa negar a tentativa de outros de feri-lo repetidamente;                         
• Não significa permitir que pisem em você;                                                             
• Não significa se recusar a dar queixa quando o ato foi criminoso;                        
• Não significa esquecer o mal que foi feito;                                                           
• Não significa fingir que você nunca se magoou;                                                             • Não significa que você deve restaurar o relacionamento ao que era;                 
• Não significa que você deve voltar a ser amigo daquela pessoa;                     
• Não significa que deve haver reconciliação total, como se nada tivesse acontecido;                                                                                                                    
• Não significa que você precisa dizer à pessoa que a perdoou;                                                            
• Não significa que todas as consequências negativas do pecado são anuladas.
O que é perdoar?
É um processo interior e pessoal quando perdoamos secretamente, sem que ninguém, nem mesmo quem está sendo perdoado saiba disso. Assim, pode-se perdoar mesmo alguém que já morreu.
Cada ato de perdão é um confronto conosco mesmo e a decisão de perdoar, soltar o ofensor nos liberta. Nos lembraremos da ofensa, sem sentir dor. É como uma ferida que está cicatrizada.
O perdão é um ato libertador que nos devolve paz interior. Nos livramos da raiva, da mágoa e do ressentimento que, juntos sempre se transformarão no desejo de vingança. O perdão é um ato de amor que estanca o ciclo vicioso do ressentimento, da excitação do ódio.
Quando perdoamos, somos perdoados e nessa prática encontro paz, compaixão e gratidão, que sempre nos trarão de volta à nós mesmos.
Quando perdoamos estamos usando a nossa habilidade de direcionar as nossas vidas para fugir das armadilhas emocionais a que estamos expostos e nos valorizamos.

Jay Adams, famoso psicólogo americano afirma: “O perdão não é um sentimento, mas uma promessa ou compromisso relativo a três coisas: não usarei contra o meu ofensor, não falarei com outras pessoas sobre o meu ofensor e não insistirei mais nisso”
O perdão é fundamentalmente uma decisão interior de recusar-se a viver no passado. É uma escolha consciente de libertar os outros dos pecados cometidos contra você para que você possa ser liberto. Não nega a dor nem muda o passado, mas rompe o ciclo de amargura que o prende às feridas de outrora. O perdão lhe permite deixar o passado para trás e avançar para o futuro. E essa história ilustra como é possível perdoar mesmo quando os outros nada confessam. Você pode perdoar sem haver restauração no relacionamento. Você pode perdoar mesmo quando a pessoa que lhe feriu não tome conhecimento.
O perdão lhe permite deixar o passado para trás e avançar para o futuro.  A pessoa não fez coisa alguma para merecer o perdão, pois o perdão é como a salvação — é uma dádiva oferecida gratuitamente e que não pode ser merecida. Pode acontecer de você perdoar e a outra pessoa nem ficar sabendo. Você pode perdoar sem dizer: “Eu o perdôo”, pois o perdão diz respeito ao coração. Isso me leva de volta às palavras de C. S. Lewis: “Todos consideram o perdão uma ideia muito bonita até precisarem perdoar alguém”.
TRÊS NÍVEIS DE PERDÃO segundo Lewis Smedes
·        Em primeiro lugar, redescobrimos a natureza humana de quem nos magoou. Isso significa simplesmente que, sem amenizar o pecado dessa pessoa, reconhecemos que é pecadora como nós.
·        Em segundo lugar, abrimos mão do nosso direito de acertar as contas com aquele que nos causou muita dor. Trata-se de algo difícil, pois é natural desejar que alguém pague pelo sofrimento que a pessoa nos causou. Devemos, porém, deixar todo julgamento nas mãos de nosso Deus justo e misericordioso.
·        Em terceiro lugar, reavaliamos nossos sentimentos em relação ao outro. Isso significa abandonar a raiva e colocar de lado a amargura. Em última análise, significa atentar, com seriedade, para as palavras de Jesus quando disse: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5:44). Você saberá que chegou a esse nível final de perdão quando for capaz de pedir que Deus abençoe aqueles que o feriram de modo tão doloroso e profundo  
- Divórcios. Lares despedaçados. Casamentos destruídos. Promessas quebradas. Filhos que não querem saber dos pais. Pais que não querem saber dos filhos. Amigos de longa data que não se falam mais. Pessoas que perderam o emprego porque alguém lhes puxou o tapete. Pessoas que perderam os bens porque alguém as lesou. Famílias cujos membros se odeiam tanto que não conversam nem na época do Natal. Todos esses dissabores têm várias respostas, mas no fundo apenas uma. Todos têm muitas soluções, e uma que você deve implementar: - Livre-se deles e você será liberto. Porém, no mesmo instante em que ouvimos ou lemos essas palavras, a mente inicia as argumentações:  - Você não sabe o que ele/a ou eles me fizeram?!!!!
       Eles mentiram repetidamente a meu respeito.
       Ela queria destruir minha carreira — e conseguiu.
       Você não pode imaginar o inferno que vivi.
       Se você soubesse como isso afetou minha família, também ficaria com raiva.
       Eles merecem o mesmo sofrimento que me impuseram.
       Vou fazê-los pagar por isso.
       Minha filha foi estuprada. Como é possível perdoar uma coisa dessas?
       Sofri abuso sexual de um clérigo. Como é possível perdoar uma coisa dessas?
       Nunca vou perdoar essas pessoas. Nunca! 
Por que perdoar é tão difícil?
- Porque uma parte de nós deseja continuar a sentir a raiva porque ela é justificada; ou porque a pessoa que sofreu o dano, a que foi ferida é quem perdoa e não aquela que o causou. Aquele que perdoa paga o preço pelo mal que o cometeu contra ele. É levar sobre si a culpa do pecado de outrem. O ofensor é liberto suportando a sua própria repulsa transformando-a em amor. Absolvemos e libertamos o culpado.  Ninguém realmente perdoa a outrem a menos que suporte a penalidade do pecado e da ofensa alheia.
É difícil perdoar porque todos nós temos o hábito de construir nas nossas mentes a maneira como o outro deve agir, como deve nos tratar e quando isso não acontece, quando nossas expectativas são frustradas, ficamos com raiva e endurecemos!
Perdoar é desistir do meu direito de devolver-te a ofensa, a mágoa que me causaste.
·        Um ditado popular diz: ultrajando teu inimigo, tu te colocas abaixo dele, vingando uma injuria, estás no mesmo nível dele, perdoando, estás acima dele.
·        A vingança é a arma mais sutil do mundo. Queime-se lentamente e você não ferirá senão a si mesmo. Aquele que maquina o mal contra outrem envenena o seu coração, onde se torna impossível brotar a bondade, o amor, a generosidade.
O perdão é uma questão do coração
Pv. 4: “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida”
É do nosso coração que procedem as iras, as contendas, os sentimentos de inveja e toda a sorte de maldade. Se as fontes estiverem poluídas, dali brotarão má água. (mágoas) e a vida toda se torna amarga como o fel.
Perdoar é também blindar o próprio coração para que ofensor não volte a nos ofender, esta é  uma questão de sabedoria. Perdão e reconciliação são coisas distintas.
A reconciliação só acontece quando a pessoa que nos feriu se dá conta do prejuízo que causou e se arrepende da sua atitude.
E quando sou eu o ofensor?
Qualquer que seja a ofensa cometida, precisamos nos dar conta da necessidade de consertar o erro. As vezes a reconciliação falha porque a pessoa ferida pode não estar disposta a perdoar a ofensa (daí o problema já não é do ofensor arrependido, mas de quem não está disposto a perdoar).

 Para aprender a perdoar eu preciso primeiro aprender a reconhecer a minha humanidade e finitude pedindo perdão a quem ofendo. Eu sei que sou gente e cometo erros, mas estou disposta a consertá-los. É uma questão de humildade. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário